Tatuagem – Tatuador de SP é denunciado por usar sem autorização foto de menino negro após vencer concurso

Tatuagem feita com imagem de criança de 4 anos sem autorização dos pais e fotógrafo — Foto: Reprodução/Instagram

Um tatuador de São Paulo que ganhou dois prêmios durante a convenção de tatuagem “Tattoo Week”, realizada em outubro desde ano na capital paulista, foi denunciado por usar em uma das tatuagens premiadas a foto de um menino negro sem autorização dos pais da criança e do fotógrafo responsável pela imagem.

A denúncia foi feita nas redes sociais pela mãe do menino, que mora na Zona Norte do Rio de Janeiro Ela soube por meio de um internauta que o rosto do filho de apenas 4 anos havia sido tatuado em uma pessoa desconhecida.

O tatuador Neto Coutinho pediu desculpas para a família e quer resolver a situação de forma pacífica, segundo seu advogado de defesa, Gabriel Rodrigues. A mãe da criança autorizou a reportagem a usar a imagem do rosto do filho.

De acordo com a organização que premiou a tatuagem, o critério da premiação foi “estritamente técnico e artístico, julgado por uma comissão de conceituados tatuadores”. Não houve entrega de dinheiro.

Ao g1, Daniele de Oliveira Cantanhede, mais conhecida como Preta Lagbara, disse que, no fim do mês passado, um internauta a marcou na postagem do tatuador que tinha publicado a tatuagem e comemorava o segundo lugar na premiação.

“Eu fiquei muito assustada. Ele não teve cuidado de saber sobre meu filho. Uma mãe nem ser consultada para saber se podia tatuar na pele de uma pessoa a foto do filho dela? Não existe isso. É um absurdo. Imediatamente entrei em contato com o tatuador. Comentei na foto que ele publicou e pedi contato. Mas ele não me respondeu por um bom tempo”, afirmou.

Foi então que Preta pediu ajuda para o fotógrafo Ronald Santos Cruz, que foi quem fez a imagem do filho com a autorização dela, neste ano.

Foto do filho de Preta Lagbara tirada pelo fotógrafo Ronald Santos Cruz — Foto: Ronald Santos Cruz

Ronald tem mais de 80 mil seguidores nas redes sociais e é conhecido por retratar pessoas negras no Brasil. Em 2019, ele chegou a ser selecionado para a exposição de fotografia pelo Centro Europeu e, em 2020, ficou entre os 100 melhores fotógrafos do mundo na modalidade retrato masculino, pelo Concurso Internacional realizado pela empresa russa 35awards.

“Eu pedi ajuda para ele compartilhar o caso, porque estava sem resposta. Ele compartilhou, achou um absurdo também, e aí repercutiu muito. Com a repercussão, o tatuador veio me procurar falando que achou a foto no Pinterest [rede social de compartilhamento de fotos], achou bonita e tatuou durante o evento”, disse.

Ainda conforme a mãe, ela procurou um advogado e vai entrar com uma ação contra o uso da imagem do filho.

“Eu quero que retire essa tatuagem no corpo desse homem. Eu não quero que o rosto fique na pele de um desconhecido. Eu acho surreal alguém pegar foto do meu filho, seja em contexto que for, e tatuar em uma pessoa que sequer conhece ele. Então, dane-se se foi uma arte. Meu filho não é para ser comercializado, tatuado em corpos. Isso não tem possibilidade de ser aceito por mim. É um absurdo. Vou até o final. Não concordei, não achei bonito.”

O que diz o tatuador?

g1 conversou com o advogado de defesa do tatuador, Gabriel Rodrigues, que disse que o tatuador não teve má-fé e pediu desculpas para a família.

“Vamos tentar fazer um acordo e resolver a questão de forma pacífica. Estamos em tratativas, e existe esse diálogo já. Ele nunca pretendeu prejudicar ninguém. Realmente, tem toda uma questão artística e vamos tentar dialogar. Caso não se resolva no diálogo, vamos responder ao processo que poderá ser aberto”, afirmou.

Em nota publicada em sua rede social, o tatuador também se retratou com a comunidade preta. Veja a nota na íntegra.

“O artista Neto Coutinho vem através do presente comunicado posicionar-se oficialmente acerca da tatuagem em que retrata a imagem de uma criança, a qual teve intensa repercussão na data de 28/11/2022.

Assim sendo, o referido artista SE RETRATA expressamente sobre a reprodução da fotografia efetuada por Ronald Santos Cruz. No que se refere a criança representada pela tatuagem, o artista Neto Coutinho encaminha seu profundo pedido de desculpas, principalmente aos pais, familiares e a própria criança.

Há de se evidenciar que, no caso em apreço, o artista Neto Coutinho pautou a execução da tatuagem sem o nível de informação necessária, reconhecendo o equívoco cometido, mas – sobretudo – sem qualquer intenção de trazer prejuízo para quem quer que seja.

A par disso, assenta-se o total interesse e disponibilidade de o artista em menção resolver possíveis pendências juntamente com o fotógrafo e com a genitora da criança representada na imagem, principalmente diante da importância de todas as questões que circundam o caso.

Em seu turno, o artista Neto Coutinho também se retrata frente a comunidade preta, a qual – inclusive – faz parte, basta uma breve análise de sua fisionomia/traços através de fotos em seu perfil do Instagram.

De fato, a jornada de qualquer pessoa é marcada por erros e acertos, de modo que – por parte do artista Neto Coutinho – haverá um canal contínuo de diálogo junto aos envolvidos para a minimização de eventuais danos sofridos.”

O que diz o fotógrafo?

Em seu perfil no Instagram, o fotógrafo Ronald ressaltou que não foi consultado pelo tatuador sobre o uso de sua foto.

“Como um cara branco deixa um tatuador tatuar uma imagem de uma criança negra que nunca viu na sua vida em seu corpo? Eu sou um cara que sempre fotografo muitas crianças e, uma hora ou outra, sempre chega um artista que pergunta se pode usar meu trabalho como referência. Eu sempre digo que vou ver com os pais quando não tem fins lucrativos. Mas essa tatuagem foi tão perversa, sem explicação”, disse.

“Segundo o tatuador, ele achou a foto no Pinterest e achou que fosse pública, e resolveu tatuar a criança num corpo branco. A gente está em 2022 e, se voltarmos lá atrás, vemos que muita coisa não mudou. Como se nossos corpos, nossos rostos, não tivessem donos. E olhar o caso como esse é do mínimo absurdo. Primeiro, tem os direitos autorais de pegar a foto. Segundo, é a imagem de uma criança. Terceiro, participa de um prêmio com a foto de uma criança que achou bonito e vai lá tatua. É sem lógica.”

Ainda conforme Ronald, ele está com apoio jurídico e vendo a melhor opção para tratar do caso. “No mínimo curioso porque é sem noção. Caso inédito de ter foto virar tatuagem sem permissão.”

Fonte: G1

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